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9.outubro.96 |

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É comum ouvir-se dizer que Tom Jobim é o maior compositor da MPB, como se esta fosse a honraria máxima que se pudesse atribuir a ele. Ser considerado o maior compositor da MPB é algo a que muitos entre os seus grandes nomes fazem jus e trata-se de um reconhecimento que estaria de bom tamanho para qualquer um deles. Acho, entretanto, que se referir a Tom dessa maneira é ignorar ou, no mínimo, limitar o alcance da repercussão de sua obra. Num certo sentido, é semelhante a afirmar-se que Pelé foi o maior jogador de futebol do Brasil...e mais nada.
Tom não "cabe" apenas na MPB. Talvez a maior parte dos seus "colegas" no universo da música popular tenha residido além de nossas fronteiras: são os Kern, Gershwin, Porter, Rodgers e Arlen, os grandes songwriters do teatro musical e de Hollywood, criadores de um sofisticado gênero de canção que se estabeleceu na primeira metade do século e cuja vigência Tom, sem nunca abrir mão de sua brasilidade, estendeu por alguns anos - coisa de que, possivelmente, muitas pessoas não se tenham dado conta. Quando quase todos eles já tinham partido e, nos anos 60, o máximo a que Sinatra podia apelar era "Something Stupid", eis que surge Tom com 10, 20, 50 e não sabemos mais quantas músicas maravilhosas e - dádiva divina - quase todas inéditas fora do Brasil, e ali, prontinhas para serem gravadas. Deve ter sido difícil para "The Voice" acreditar que era verdade... E por que atribuir a Tom esta condição e não a outros? Entre outras razões porque Tom, a exemplo da maioria dos songwriters:
E é claro que Tom cultivava a música dos seus "colegas" songwriters americanos (e como poderia ser de outra forma?). Ao mesmo tempo, amava a música brasileira, o samba, a canção sentimental. Seu mérito indisputável foi saber integrar música brasileira e música americana de uma maneira altamente original, mas também natural, doce e despojada (sempre achei que Tom se preocupou muito mais com a "bossa" do que com a "nova" da bossa nova). Que outro compositor da MPB teve esse perfil e chegou tão longe? Qualquer pessoa de sensibilidade e nível razoável de conhecimento musical e cultura em geral, sabe que são raras as canções brasileiras cuja construção, do ponto de vista formal, melódico e harmônico, tem afinidade ou paralelo com o requinte da imensa maioria das músicas de Tom. Tais paralelos só podem ser encontrados, com freqüência, na obra dos songwriters. E, para concluir, volto a fazer referência ao "período Sinatra" como reforço do que estou pretendendo afirmar - destacando-o apenas como um dentre os inúmeros momentos vividos por Tom que serviriam para dar uma idéia da sua posição na música popular internacional - indagando: que compositor, de carreira ainda longe da consagração e proveniente de país de pouca projeção no cenário mundial, jamais viveu situação semelhante, qual seja, a de ter suas músicas gravadas em dois álbuns por um artista tido como verdadeiro símbolo cultural de uma nação criadora e exportadora de cultura e considerada a maior potência de sua época? Tom, além de ter vivido tal situação, o fez de maneira absolutamente segura, como prova a famosa filmagem em que aparece ao lado de Sinatra apresentando "Garota de Ipanema", na qual Tom se sente "em casa" a ponto de dividir com Sinatra trechos da música cantando em português e fazendo caretas "em tom" de brincadeira! Que outro compositor da MPB jamais reuniu condições sequer de sonhar com um reconhecimento ao estilo desse? |
Cláudio Leal Ferreira é maestro.
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