Daniel Jobim, neto de Tom

entrevistado por Luiz Roberto Oliveira
setembro.1996




Daniel e o piano de Tom
Luiz - Daniel: você sempre viu o Tom tocar ?
Daniel - Vi sempre, desde pequeno, ele tocando o dia inteiro.
L. Uma coisa curiosa, você toca com a mesma mão que ele, o mesmo tipo de toque.
D. Primeiro é o jeito da mão, que a gente tem um defeito igual.
L. Você e o Tom ?
D. É. E meu pai também, porque esse dedo não abre direito, você vê que não dá para fazer uma décima.
(mostra o polegar esquerdo)
L. Você sabe que eu também tenho esse mesmo defeito ?
D. Muitas pessoas tem.
L. Você sabe para que isso é bom ? Pro violão.
D. Para tocar os baixos, né ? Mas ele dizia que queria colocar um dedo de plástico. Acoplar um dedo. Quase que ele comprou um dedo de plástico para colocar por cima, para poder tocar os acordes completos.
L. Mas ele falava nisso ?
D. Falava o dia inteiro ! "Eu vou comprar um dedo de plástico para poder tocar os acordes", porque quando pinta os acordes grandes aí tem que fazer um negócio meio assim.
L. É, você tem que harpejar. E o Tom não tinha mão grande.
D. Não, a mão dele era menor do que a minha. Mas também é a dinâmica de tocar. Porque o pessoal toca muito com a articulação do braço, e o som do piano fica mais batido.
L. Você estudou piano ?
D. Estudei com Evandro Ribeiro Rosa.
L. Mais no estilo clássico ou no popular ?
D. Ele é que me ensinou essa técnica. Porque ele estudou junto com meu avô. Eles tinham a mesma professora, de quem não me lembro o nome. Foram amigos de escola.
L. Quem era seu avô ?
D. (sorriso)... Era um pianista aí....
L. Um pianistazinho aí...
D. Eles estudavam juntos e aí eu fiz aula com o Evandro. E eu aprendi essa técnica, que era meio de relaxamento dos dedos e para não tensionar os braços. E também aprendi junto com meu avô... Ele falava muito sobre o touché, o toque do piano. Era importante tentar tocar de uma maneira leve...
Talvez a semelhança física da minha mão com a dele contribuiu para termos esse mesmo toque.
L. Qual é o gênero de música que você, Daniel, mais gosta, nos seus vinte e poucos anos ?
D. Bom..... Comecei a estudar música por causa da música do meu avô mesmo. Gosto muito, sei lá, de Michael Jackson e essas coisas que tocam por aí, eu gosto.
L. Você é um cara mais dividido, com um gosto mais abrangente.
D. Mais ou menos. Eu já gostei de mais de rock, rock mesmo, mas hoje em dia não gosto. Prefiro pop, músicas americanas, rhythm and blues, gosto mais do que o rock das bandas. Esse rock americano não gosto, prefiro coisa mais pop, sei lá. Do rap, poucas coisas, eu não gosto muito. Eu gosto mais de músicas negras, com melhores canções e melodias.
L. E música erudita, você gosta ?
D. Eu comecei estudando, mas não tenho tocado muito. Depois do Evandro fiz aula de piano clássico também. Mas tocando muito assim em casa mesmo, lendo. Gostava muito de Debussy.
L. Ah, eu também gosto muito de Debussy.
D. Eu ficava lendo a suite Bergamasque e tudo. Mas nunca cheguei assim a preparar uma peça e tocar, como um concertista. Eu nunca fiz isso. Mais por curiosidade mesmo . Como meu pai que toca isso tudo também, mas ele toca lento, bem lento. Desde que eu nasci ele toca essas músicas.
L. Eu faço muito assim também: pego aquelas orquestrações, as partituras, e vou lendo.
D. Meu avô comprou um livro para mim, para eu estudar: "Tem umas músicas fáceis, de Chopin, as Mazurkas, você tem que estudar as Mazurkas". Mas eu nunca estudei muito não. Aqui está o livro.
L. E tem uma dedicatória.
D. "Pro Pipo com um beijo do Vô".
L. Pipo ?
D. Pipo é o meu apelido.
L. E o Tom tocava isso ?
D. Ele gostava mais de algumas, e tinha uma que ele tocava, era essa aqui: opus 17 número 4, página 26.
L. Mas ele tocava essas peças bem, com desenvoltura ?
D. Ah, essa aqui então quando ele quiz me mostrar, ele estudou, e tal.
(Daniel toca um trecho da Mazurka)
D. Tem uns harpejos bonitos, essa música é linda.
L. Essas mazurcas são lindas, lindíssimas.
D. Fico escutando muito aquele negócio que ele tocava quase todo dia de manhã. De Brahms.
L. Qual era a peça ?
D. Um intermezzo. Ele tocava muito isso, adorava. Não é o primeiro não, é esse segundo, o Intermezzo número 2. Eu já estudei um tempo, hoje em dia não me lembro não. Isso é bonito.
(Toca um trecho)
L. Daniel, e o Radamés Gnatalli ? Você conheceu ?
D. Ah, mas eu conheci muito pequeno, eu me lembro dele bastante, mas ...
L. Mas você ouviu ele tocar e tudo ?
D. Certamente, mas eu era tão criança... e eu ouvia no meio daquela bagunça, eu não sabia nada de música, não deu para aproveitar muito. Porque com meu avô, eu ia a todos os shows e ensaios e ficava olhando de trás. Nos ensaios eu sentava do lado e ficava vendo ele tocar o dia inteiro.
Eu já sabia um pouco de música, e tal. Eu fotografava rápido. Quando ele fazia uma música nova eu já guardava rápido, eu estava acostumado a ficar vendo o jeito dele tocar. Mas o Radamés não. Porque eu era pequeno.
L. Vai acabar a fita, toca alguma coisa do seu avô.
D. Do meu avô ?
L. Qualquer coisa, uma que você goste mais, um trecho pequeno.

(Daniel toca "Correnteza". Quem ouvisse da outra sala, poderia pensar que o próprio Tom estava alí, sentado ao mesmo piano Yamaha preto onde fêz tantas canções).



Daniel Jobim é músico.

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